2.0 Método Paulo Freire
No auge da Guerra Fria, os Estados Unidos lançaram um projeto chamado Aliança para o Progresso, que visava a alavancar o processo de crescimento econômico e acabar com o que o bloco capitalista entendia como “crescente comunismo” que vinha assolando a América Latina. No entendimento de quem liderou o projeto, a erradicação do analfabetismo seria uma maneira de frear a ascensão socialista.
O Brasil foi um dos contemplados pelo projeto, e no Nordeste, ainda como fase experimental, a cidade de Angicos, no Rio grande do Norte, foi uma das primeiras grandes experiências de tentativa de erradicação do analfabetismo. A escolha da cidade e a verba destinada ao projeto de Angicos, cerca de 36 dólares por aluno, vieram desse plano norte-americano. Paulo Freire elaborou o projeto, formou uma comissão de coordenadores e treinou professores para aplicar o plano.
Em 40 horas, percorridas durante quase um mês, 300 jovens e adultos foram alfabetizados pelo método desenvolvido por Freire. O educador brasileiro criticava o modelo de educação que ele chamava de “educação bancária”. Esse modelo é baseado na visão de que o professor é o centro do processo e detentor do conhecimento das matérias, sendo o responsável por depositar aquilo que sabe em seus alunos.
Freire falava da importância de pensar-se em uma educação capaz de reconhecer a cultura do educando e agir com base nela, naquela realidade, pois somente assim ela faria sentido para aquele que vai ser alfabetizado. Nas palavras do filósofo:
“a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.”
Na visão de Freire, a leitura (e, no mesmo sentido, a escrita) somente fará sentido se for acompanhada de uma capacidade de ler o mundo, de perceber o mundo, de reconhecer os papéis desempenhados pelos atores do mundo e de reconhecer-se como peça naquele mundo. Por isso, Freire agia com base nas palavras que faziam parte do cotidiano dos trabalhadores em processo de alfabetização para ensiná-los.
Marcos Guerra, advogado e coordenador do projeto em Angicos, conta que “a alfabetização era baseada em 12 a 15 palavras apenas que continham todos os fonemas da língua portuguesa. No debate sobre a palavra trabalho, o que é que vem? Vêm as condições de trabalho. Aí evoca discussões sobre trabalho, condição de trabalho [...] remuneração de trabalho, garantias, direitos, deveres”. Palavras como tijolo, barro, trabalho, labuta e telha eram as norteadoras do método, que não foca no conteúdo ensinado, mas no processo.
Outra característica do método freire ano é a tentativa de levar uma conscientização política e de classe para os educados. Talvez esse seja o fator que mais tenha despertado a ira dos setores conservadores, responsáveis por extinguir o Plano Nacional da Alfabetização e por exilar o professor pernambucano.
A obra de Paulo Freire e o seu método são profundamente marcados pela insistência de levantar-se um novo tipo de educação, capaz de dar autonomia às classes dominadas por meio do diálogo e de uma educação emancipadora.
Para quem se simpatiza com as idéias do filósofo pernambucano, essa tarefa é necessária para a criação de um novo Brasil, mais justo e igualitário. Para quem discorda de sua obra (não pretendemos fazer uma afirmação generalizadora, pois podem existir críticas pontuais plausíveis acerca do método ou da obra freireana, e lembrando que as críticas não presumem sua anulação), há, em geral, um medo de que ela seja a cartilha para fazer o que setores conservadores têm chamado de “doutrinação marxista nas salas de aula”.
Essa acusação, sustentada nos dias atuais por grupos políticos ligados à extrema-direita, era a mesma que condenava Paulo Freire em 1964. O doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e biógrafo de Freire, Sérgio Haddad, conta, em matéria publicada na Folha de São Paulo, acerca do relatório escrito sobre Freire para justificar a sua prisão, dias após o seu exílio.
O inquérito, comandado pelo tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima, dizia que Paulo Freire era “um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos”, que “sua atuação no campo da alfabetização de adultos nada mais é que uma extraordinária tarefa marxista de politização das mesmas” e que Freire “é um cripto-comunista encapuzado sob a forma de alfabetizador”.
2.1 Existe método Paulo Freire nas escolas públicas?
O mais famoso educador brasileiro, Paulo Freire, acreditava que ensinar era como despertar o aluno para ler o mundo. Ou seja, possibilitaria a formação da consciência sobre quem o sujeito é no meio em que ele vive. Para ele, as grandes transformações partem desse princípio. A alfabetização era, para o educador, um modo de os desfavorecidos romperem o silêncio em que são colocados, podendo ser, então, os protagonistas da própria história, como escreveu em seu livro Pedagogia do Oprimido. A suposta aplicação de sua filosofia nas escolas públicas é alvo de críticas por parte do candidato à presidência, Jair Bolsonaro (PSL), para quem seus ensinamentos "marxistas" atrapalham o desenvolvimento dos alunos. Ao criticar o Ministério da Educação (MEC), disse que se eleito "vai entrar com um lança-chamas no MEC e tirar o Paulo Freire lá de dentro".
Paulo Freire teve atuação e reconhecimento internacional. "Pedagogia do Oprimido" é o único livro brasileiro a aparecer na lista dos 100 mais pedidos pelas universidades de língua inglesa, segundo o projeto Open Syllabus, que reúne dados do mundo acadêmico. Outras 20 obras do escritor também aparecem em outros rankings, como "Política e Educação". Além disso, o educador é o terceiro pensador mais citado em universidades da área de humanas em todo o mundo, de acordo com levantamento feito pela ferramenta de pesquisa para literatura acadêmica Google Scholar, que mostra que Freire foi referenciado 72.359 vezes.
2.2 Contra o analfabetismo
No Brasil, em 1960, Paulo Freire desenvolveu a metodologia de alfabetização que realizou, entre outros feitos, a possibilidade de alfabetizar 300 cortadores de cana no Rio Grande do Norte, em apenas 45 dias. Paulo Freire ficou conhecido, assim, pelo método de alfabetização para adultos que leva seu nome. Dessa forma, o pensamento pedagógico do educador sempre se assumiu como político, uma vez que seus estudos se concentravam nas classes sociais menos favorecidas e que, na época, não eram totalmente atendidas pelas escolas públicas
Os estudos e atuações de Paulo Freire, então, faziam sentido na realidade em que ele estava inserido. Em 1950, metade dos brasileiros eram analfabetos. Hoje, entre as pessoas com 15 anos ou mais no país, 7% não sabem ler e escrever, segundo o IBGE. Apesar da queda gradativa ao passar das últimas décadas, esse número significa que o Brasil ainda está entre os dez países com mais analfabetos no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Assim, o estudo de Freire continua sendo atual.
O educador também foi condecorado como Patrono da Educação Brasileira em 2012, por meio de lei sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff e seu legado foi reconhecido pela Unesco. O título no Brasil foi concedido após votação unânime na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado naquele ano. Em oposição, um abaixo-assinado enviado ao Congresso Nacional em 2017, apoiando o projeto de lei Escola Sem Partido, afirma que o método Paulo Freire “já demonstrou em todas as avaliações internacionais que é um fracasso retumbante”, recebendo 21 mil assinaturas apenas no primeiro mês de coleta de apoio virtual e pedindo para que a condecoração seja retirada.
2.3 Como Paulo Freire é visto internacionalmente?
Paulo Freire é um dos intelectuais brasileiros mais referenciados do mundo — está entre os 100 mais citados em estudos e o seu livro mais famoso, Pedagogia do Oprimido, é a terceira obra mais citada em trabalhos acadêmicos da área de humanas.
Ao redor do globo, o educador é tido como referência mundial em qualidade de ensino e já foi homenageado em diversos países. O Centro Paulo Freire Finlândia é um espaço dedicado à discussão da obra do escritor brasileiro. Há também centros de estudos semelhantes em outros países como África do Sul, Áustria, Alemanha, Holanda, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos e Canadá.
Pelo mundo, há diversas instituições de ensino que adotam o método do educador brasileiro. Uma delas é a Revere High School, escola em Massachusetts, nos Estados Unidos, que foi reconhecida como a melhor instituição pública de Ensino Médio do país em 2014 pelo National Center for Urban School Transformation (Centro Nacional pela Transformação do Ensino Urbano) e, em 2016, recebeu o prêmio Schools of Opportunity (Escolas de Oportunidade), do National Education Policy Center (Centro Nacional de Educação Política).
2.4 Por que Paulo Freire é tão criticado atualmente?
O nome Paulo Freire tem despertado diversas discussões na política brasileira — de um lado, há os que o consideram um dos maiores nomes da educação no Brasil e mundo; do outro, os que atribuem a ele responsabilidade pelos maus resultados educacionais do país e afirmam que é preciso extinguir sua “metodologia comunista” das escolas brasileiras. Mas a que se deve tamanha polêmica?
2.5 Educação neutra: meta ou mito?
A principal crítica à metodologia do filósofo diz respeito ao fato dele defender a não neutralidade da educação. Os defensores do projeto Escola Sem Partido afirmam que ao trabalharem questões políticas em aula, os professores promovem uma doutrinação dos alunos em favor de determinada ideologia. O projeto preza pela imparcialidade, em oposição aos ideais de Freire, que acreditava não existir um processo de educação neutro e que a escola é local para discussão sobre a realidade social e política a fim de desenvolver “posturas criticamente transformadoras do mundo”.
Segundo Sérgio Haddad, do programa de pós-graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul, e autor da biografia de Freire, o pedagogo era a favor de que o professor expressasse sua opinião sobre temas gerais da sociedade na sala de aula, em um ambiente franco de debate com seus alunos. No entanto, ele não era favorável à doutrinação política ou partidária – afinal em um ambiente de diálogo e respeito às diversas opiniões é possível discordar livremente.
Contudo, o que opositores dessa filosofia argumentam é que o professor muitas vezes está em uma posição de “superioridade”, e por isso pode abusar da audiência cativa dos seus alunos para influenciá-los a concordar com a sua própria visão de mundo. De acordo com eles, os estudantes teriam dificuldade em discernir a opinião do professor do que é o fato, por ele ser uma autoridade, aceitando o que foi dito como verdade sem contestar ou não expressando uma opinião contrária por constrangimento.
Por outro lado, aqueles que defendem a metodologia de Paulo Freire, afirmam que seu objetivo era justamente que o professor não fosse essa figura de superioridade na sala de aula e que seu método promove o contrário da doutrinação: dá espaço para que os alunos pensem por conta própria e reflitam criticamente sobre a realidade, ao invés de aceitar passivamente o que foi falado pelo professor.
2.6 Doutrinação marxista?
O ideólogo brasileiro Olavo de Carvalho é um dos principais críticos da teoria freireana e alguns de seus seguidores entendem que o método de ensino de Freire causa a “doutrinação marxista” dos alunos e tenta convertê-los aos ideais comunistas. A justificativa é de que, em seus livros, o educador faz referência a Karl Marx, Jean-Paul Sartre, George Lukács e outros pensadores da esquerda, além de figuras políticas como Fidel Castro, Che Guevara, Mao Tsé-Tung e Lenin.
Os livros do pedagogo também abordam conceitos marxistas como opressor e oprimido e a luta de classes. Freire acreditava que, por trabalhar com a alfabetização de adultos pobres, esses conceitos auxiliariam no objetivo de tornar a educação libertadora e que, dessa forma, despertaria a consciência dos alunos para as relações de opressão nos ambientes de trabalho e para as injustiças sociais existentes na sociedade. No entanto, há quem discorde e condene o fato de suas teorias apresentarem posicionamentos políticos junto às explicações pedagógicas.
Em entrevista, Sérgio Haddad diz que o educador tecia críticas ao capitalismo, mas também aos regimes socialistas autoritários que desrespeitavam a liberdade e a democracia.
2.7 Destruição da autoridade do professor ou combate ao autoritarismo?
Outra acusação é de que Freire teria destruído a autoridade do professor ao tentar colocá-lo de “igual para igual com os alunos”. Isso pode, de acordo com os críticos, ocasionar em um clima de caos nas salas de aula.
Porém, em seu livro Pedagogia da Esperança, Freire diz que “os professores não são iguais aos alunos”. Sua tentativa de aproximar a relação entre professor e aluno não seria, segundo os que o defendem, um empecilho para uma boa dinâmica de aula, mas um combate ao autoritarismo que alguns professores usam e às táticas de disciplina baseadas no medo e nas ameaças.
“O professor que desrespeita a curiosidade do educando, (…) que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha em seu lugar’ ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, (…) transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência.” (Paulo Freire)
2.8 Instituto Paulo Freire
O Instituto Paulo Freire surgiu com base na idéia do professor brasileiro de reunir instituições e implementar ações voltadas para a educação como pilar da inclusão social e da redução da desigualdade econômica.
Surgido em abril de 1991 e fundado oficialmente em setembro de 1992, o IPF atua, desde então, promovendo consultorias e elaboração de projetos voltados para a educação de jovens e adultos; implementação de currículo e projetos políticos pedagógicos; e cursos de formação para alfabetizadores e professores em geral. Para conhecer um pouco mais sobre o instituto, basta acessar a página.
2.9 Citações de Paulo Freire
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.”
“Não existe docência sem discência.”
“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, midiatizados pelo mundo.”
“A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.”
“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”
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